segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Sei que não vou por aí

Já aconteceu de você encontrar uma pessoa e logo no primeiro contato ter a sensação de que já se conheciam há muito mais tempo? Bem, às vezes acontece comigo

Há poucos meses conheci alguém com o potencial se ser minha amiga a vida toda. Temos pouco contato ainda, mas ela parece me enxergar de verdade, é capaz de ler as entrelinhas dos meus textos e me enviar as palavras certas que preciso ler.

No último e-mail, ela me enviou um poema de José Régio. Li os versos com a sensação de que ele tinha me dissecado antes de escrevê-los. Chorei feito uma mocinha vendo filme água-com-açúcar. *risos*

O poema é o seguinte:
Cântico Negro

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
Pronto. Chorei de novo relendo o texto. *risos*
Para ler outros poemas de José Régio, aqui está o link.

Sugiro ler:
- "Adão e Eva";
- "Epitáfio para uma velha donzela";
- "Quando eu nasci";
- "Sabedoria"
- "Soneto de amor"

"Fantasia sobre um velho tema" é bem longo, mas é lindo, maravilhoso.
(eu chorando novamente *risos*)

Um comentário:

Anônimo disse...

Olá Cris.
Obrigado por ler e linkar o eupodiatamatando. Volte sempre por lá. ;)

Eles dizem por mim, eu digo por eles