sábado, 20 de outubro de 2007

Hiato

Hiato
O desabrochar de um lindo pássaro azul


Por meses eu aguardei para ter minha vida de volta.
Por vezes esquecia de viver.
Não, não me entendam mal. Eu estava longe do dramalhão de quem não quer mais viver. Eu apenas esquecia, não comia, não dormia, eu apenas sobrevivia.
Por vezes tive que recuperar meu viver, mas a minha antiga vida nunca recuperei.
E aguardei nesse doloroso hiato.

Da apatia, um rompante. Eu não poderia permanecer estagnada como o enforcado do Tarot. Dormindo, hibernando como um urso que não sabe em que estação se encontra.
Eu precisava despertar novamente para a vida e comecei a me debater bravamente contra as cordas da apatia que me prendiam ao passado, a não-vida. Quem está preso ao passado não está vivendo. Eu me debati com força...

... e as cordas se soltaram...
com a delicadeza da seda.

Eu despertei não com o som estridente de um alarme e um susto. Eu acordei lentamente como se um afago me fizesse despertar. Eu estava... Onde eu estava?

Um lugar estranho de céu tão bonito! Rostos felizes, sorrindo, expressões sinceras como há muito eu não via. Eu estava em outra cidade, sem mapa, bússola ou direção. "Quem não sabe para onde vai, nunca está perdido". Li isso em algum lugar e agora fazia todo o sentido. Eu queria ir em frente e era para lá que eu ía. O que eu encontraria ao dobrar a esquina? Um parque, um monumento, uma ponte? Pouco importa. Eu comecei a passear como turista e um turista não se importa muito com a direção contanto que veja coisas belas para fotografar e viva histórias interessantes para contar.

Encontrei diamantes druidas, uma bela moça que refletia o azul daquele céu em seu olhar, encontrei a dança. Vi meu passado e meu futuro no Tarot, dei gargalhadas com um grupo animado de jogadores, celebrei um ritual de passagem e entrei para uma tribo que nascia. Fui dormir de madrugada e acordei cedo. Fiz disso um hábito. Eu não podia perder muito tempo dormindo, afinal, eu já tinha dormido mais do que o necessário.

O dia de retomar a minha vida chegou, mas quem está voltando para casa sou eu.

Eu não quero voltar.

Também não quero deixar tudo para trás.

Se doeu aquele hiato de meses... Ah! Como dói muito mais esses últimos dias!

Estou indo para a fronteira entre a cidade onde aprendi a ser pato e a outra que me tornou um pássaro. Um lindo pássaro azul. Qualquer um pode ser um pássaro, basta querer. Eu vou chamá-lo para voar comigo, mas não faço idéia da resposta.

Como dói a espera! Dessa vez não dói pela ausência de vida que fugiu pela brecha da janela. Dessa vez dói pela vida que se debate dentro de mim e se recusa a morrer, como um pássaro que não quer ser trancafiado em uma gaiola. De novo não. Depois que se experimenta o doce sabor da liberdade, esse vento suave acariciando nosso rosto, não se pode voltar para as correntes e amarras sem um ato sequer de rebeldia.

O dia de retomar a minha vida chegou e a única certeza que eu tenho é que não mais irei retomar a minha vida. Eu mudei, ele mudou. Sou um pássaro da cor do céu e ele? O que ele se tornou? Será que voaremos juntos?

O hiato finalmente está terminando.

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Eles dizem por mim, eu digo por eles