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Eu vivia numa gaiola e nem sabia que era um pássaro. Disseram-me que eu não sabia voar. Um dia eu estava sozinha e desse jeito eu não podia ficar; morreria de solidão. Foi então que eu resolvi abrir a gaiola e sair e ao tentar sair eu caí. A gaiola estava pendurada no teto, em um lugar invejado por tantos, um lugar nobre, mas quando tentei sair da gaiola comecei a cair e na queda voei. Amaldiçoei todos aqueles que me julgaram uma inútil, pois eu sabia voar e voava muito bem, mas fui convencida do contrário. Tenho habilidades incríveis e uma determinação mais incrível ainda!
Então, tá. Lá estou eu: sem gaiola, correntes, algemas... nada! Voando!
Mas para quê? Voar sozinha?
Comecei a cair novamente.
Para que bater as asas? E caí e caí, caí...
E novamente me tornei inútil, um peso morto.
Tudo o que eu preciso é de um bom motivo para seguir adiante. Tenho amigos, dinheiro nunca foi um problema para mim e não tenho sequer filhos ou animais de estimação; estou livre. Posso seguir adiante. Sei voar, viro-me muito bem caçando, não sou de me acomodar*. Então porque diabos não sigo adiante? Que motivo me falta?
*suspiro* Já encontrei a resposta faz tempo.
Na época que eu estava na gaiola, tinha um coração ao meu lado. Sem esse coração, o sangue não bombeia e me falta ar. Posso aprender a voar com um só coração: é fácil. Todos voam, porque comigo seria diferente? Acontece que eu não quero; prefiro ao lado desse coração. Qual a graça de voar sozinha? Preciso encontrá-lo, mas não adianta tentar voltar para a gaiola, pois perderia todo o sentido encontrá-lo. Preciso achá-lo aqui fora. Como?
Sei que deve ter um jeito deu ir ao seu encontro, mas não tenho tempo nem estrutura para pensar. Eu estou caindo. O chão se aproxima. Grito por socorro! Esperneio! Choro! Rezo! Ninguém pode me ajudar. Só o dono do coração. Preciso voar! Mas sem ele ao meu lado eu não quero, me recuso. Eu só posso aguardar que ele escute meu pedido de socorro e entenda que se eu não vôo é porque preciso dele ao meu lado. Sem ele, todo o resto perde o sentido para mim.
*acomodada: sou indecisa, sim, e demoro muito a virar página. Isso não significa que eu me acomode onde estou.
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